O jantar de Natal e a tradição provençal das 13 sobremesas.

“Cada ano é mesma história: um vento gelado sopra na Provença trazendo com ele o frio do inverno. Os terraços dos cafés ficam vazios, dos passantes você enxerga só o nariz de tão vestidos que estão e o sol luta para manter o céu azulado. Mas depois dessa depressão que é o mês de novembro, chega o tão esperado dezembro. Ele traz consigo uma agitação, uma efervescência que  faz esquecer que o frio nessa região não é natural. As ruas ficam lotadas: cada um procura o presente debaixo das iluminaçãoes do centro da cidade. Porque aqui tem isso: a gente gosta de passear no centro histórico da cidade, onde as lojas são chiques e lindas. Nem o frio impede as familias de curtirem cada minuto dessa caça ao presente perfeito. Claro, sempre tem muita gente que prefere fazer as suas compras no shopping (tem um enorme em Marselha), mas, sinceramente a tradição francesa não tem nada a ver com os centros comerciais, mas com os passeios ao ar livre, para ver as vitrines, escutar a música nas ruas e curtir as feirinhas de Natal onde você pode comprar um vinho quente e comer pão de mel.

Com as compras feitas, chega a hora de preparar o Réveillon de Noel. Não tem muito a ver com o Réveillon mas é assim que chamamos o jantar do 24 de dezembro. Na minha família essa é a refeição mais importante e mais tradicional desse período de festas. O ritual francês vem com muitas opções e acho que a minha famiíia resolveu ficar com muitas delas. Mas este ano, a minha mãe, que cozinha de forma espetacular, quis inovar… Vamos ver juntos como ela deu um toque moderno ao nosso jantar. Como aperitivo foram servidas várias verrines (miniaturas de pratos): veio uma com guacamole e caranguejo, outra com noix de saint jacques e manga, e mais uma com salmão. Tudo isso acompanhado de Champagne para celebrar a reunião da familia, não vamos recusar um brinde com Champagne, né? Depois do brinde começamos a abrir os presentes e quando termina a meia hora de boas surpresas e exclamações  passamos à mesa. Como a minha mãe não tem muita competência em vinho e sabe que nós adoramos o champagne, essa foi a única bebida servida ao lado da água mineral. O champagne combina com tudo e ele acompanhou de forma fantástica as ostras e o foie gras. Na maioria das famílias francesas se escolhe entre foie gras e ostras. A minha nunca resolveu tomar esta difícil decisão… Na verdade, tem uma parte da familia que curte ostras e otra foie gras… e alguns apreciam os dois!  Como sempre já estávamos satisfeitos com a entrada, mas Natal quer dizer comer muiiiiiiito, né? Então vamos lá… Para substituir o tradicional peru, preferimos um pato que veio com purê com trufas. Estranhei o fato de que não havia nenhuma castanha em algum dos pratos. Mesmo morando na Provença,  a minha familia é oriunda de uma região onde a castanha é a base da comida… Mas a decepção durou pouco:  uma mousse de castanha veio completar a refeição. E estava tão saborosa que esqueci de tirar as fotos! Foi uma delícia que rompeu com a tradição da buche. Mas o que que é a bûche? Um bolo em forma de tronco de madeira, mas a origem dele é muito antiga. Na Idade Média, as pessoas costumavam colocar um grande tronco de madeira na fogueira para que ele queimasse até o dia do Réveillon. Alem de esquentar a casa no inverno a tradição dizia que isso dava sorte. Assim, se eu tiver azar este ano, vou saber por quê…

Terminada a mousse continuamos a nos delilciar com as 13 sobremesas e o café. As 13 sobremesas é a tradição de Natal mais típica da Provença no que diz respeito à comida. Ninguem sabe de onde vem esta tradição mas todos concordam que ela representa o Cristo com os 12 apostolos durante a Santa Ceia. Cada um dos 13 doces nos lembra  algo, as adaptações são permitidas, desde que não falte:

- as nozes (a ordem dos Augustinos),

- figos (as Carmelitas),

- amêndoas (os Franciscanos),

- passas (os Dominicanos),

- la pompe à huile para lembar o pão dividido pelo Cristo,

- o torrone branco e o torrone preto lembram a oposição entre o bem e o mau,

- as frutas secas que lembram a origem dos reis magos : tâmaras, damascos,

- os calissons, a nossa querida Provença,

- e as frutas frescas para festejar o recém-chegado: uvas, laranjas, peras.”

Texto e fotos Amandine Marc.

 

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